Experiência militar e destaque internacional estão entre legados que missão de paz no Haiti deixa ao Brasil

Militares brasileiros adquiriram experiência com ações urbanas na Minustah; general vê ganho logístico e operacional. Para especialista, resta saber se país saberá manter aprendizado.
Última patrulha brasileira em Cité Soleil (Foto: Tahiane Stochero/G1)

Com o fim da missão das Nações Unidas para estabilização do Haiti (Minustah), após 13 anos, os brasileiros trazem de volta mais do que tropas e equipamentos. A operação, que custou mais de R$ 1,5 bilhão ao Brasil no período (veja gráfico abaixo), permitiu, entre outras coisas, que o país adquirisse expertise militar para combater criminosos em áreas urbanas, além de propiciar relacionamento com militares do mundo inteiro.
A Minustah deu ainda ao Brasil certo destaque no cenário internacional, em especial na América Latina, como agente capaz de atuar política e diplomaticamente em missões internacionais para manutenção de paz.
No Haiti, o Exército testou, em 2007, durante a pacificação da favela Cité Soleil, a maior e mais violenta do país caribenho, planos desenhados para possíveis ações em comunidades do Rio de Janeiro, e que serviram de modelo para a forma como seria a ocupação do Alemão e da Maré, que ficaram sob responsabilidade do Exército.
"Se as Forças Armadas conseguiram subir o Morro do Alemão e entrar em várias localidades do Rio de Janeiro, foi porque desenvolveram essa doutrina de atuação em ambiente urbano, que não existia nas Forças Armadas brasileiras"
Gunther Rudzit
"Se as Forças Armadas conseguiram subir o Morro do Alemão e entrar em várias localidades do Rio de Janeiro, foi porque desenvolveram essa doutrina de atuação em ambiente urbano, que não existia nas Forças Armadas brasileiras. Por isso, estamos vendo hoje uma maior atuação em missões de garantia da lei e da ordem aqui no Brasil", diz Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM. "Sem esse aprendizado lá, muito provavelmente teria sido muito mais arriscado e comprometedor para as Forças Armadas atuar nessas comunidades próximas", diz.
Veículos Urutu brasileiros em Porto Príncipe (Foto: Tahiane Stochero/G1)
(Foto: Arte/G1)

Imagem

Tomar a frente de uma missão internacional também ajudou o Brasil a mudar sua imagem global. "Havia um discurso na diplomacia brasileira de que o Brasil já havia participado de diversas missões de paz. O problema é que mandava um ou dois observadores, e isso já tinha sido observado e comentado negativamente por parte de outros governos. Agora você tem uma missão liderada pelo Brasil e que portanto efetivamente mostrou o compromisso brasileiro com a ajuda internacional e em questões de segurança", diz o professor Rudzit. "Por isso se está falando de uma nova missão, muito provavelmente na República Centro-Africana, porque houve essa mudança de percepção em relação ao país".
Mas, para Rudzit, isso não significa que o Brasil está mais perto de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, como se comentava há alguns anos. "Foi o grande discurso dos anos 2000, de que isso daria respaldo a essa reivindicação do Brasil. Mas esquece, primeiro porque ninguém está discutindo a reforma do Conselho. Segundo, não existe essa correlação entre ajudar missões de paz e ganhar um assento no conselho", avalia.
Última patrulha brasileira em Porto Príncipe (Foto: Tahiane Stochero/G1)

Estratégia

A ideia original da pacificação no Haiti era ocupar bases de criminosos dentro das comunidades. O local onde até então os moradores viam bandidos armados, passou a ser usado por soldados da ONU, em especial do Brasil. Conquistada a base, a tropa passava a andar a pé pelos becos, conversando com os moradores, buscando conquistar contato e confiança, para que apoiassem as ações militares e entregassem bandidos, armas, munições e dinheiro escondido -- muito na época era enterrado, inclusive em refrigeradores, para dificultar a localização. Para conseguir essa aproximação, foram usados até drones que jogavam panfletos em créole, a língua local.
Nos 13 anos da Minustah, passaram pelo país caribenho mais de 37,5 mil soldados brasileiros. A cada seis meses, as Forças Armadas trocavam o contingente de cerca de mil soldados que o Brasil possuía no Haiti.
O comandante da missão de paz, general brasileiro Ajax Porto Pinheiro, aponta que há um legado logístico para os militares: "a capacidade de manter uma missão a milhares de quilômetros do país, com o uso de navios da Marinha e aviões da Força Aérea para manter a tropa com equipamentos e suprimentos necessários".
Brasileiros fazem patrulha em Cité Soleil pela última vez
Brasileiros fazem patrulha em Cité Soleil pela última vez
Soma-se a isso um aprendizado operacional, na visão do general. "As tropas foram bem treinadas e chegam aqui bem preparadas para atuar frente a qualquer risco. E o que aprendem aqui, no dia a dia, principalmente os mais novos, e esta interação que possuem com militares de outros países, ao retornarem ao Brasil, eles levam este ensinamento", explica.
"Vamos manter essa expertise de alguma forma ou vamos encerrar o capítulo da Minustah e tentar manter essa expertise indiretamente com estudos, com trabalhos, com pesquisas, mas sem uma nova missão?"
Peterson Silva
"Muitos militares têm a experiência em campo com a Minustah e hoje ocupam cargos-chave dentro da estrutura do Exército, da Marinha do Brasil. A grande pergunta é: vamos manter essa expertise de alguma forma ou vamos encerrar o capítulo da Minustah e tentar manter essa expertise indiretamente com estudos, com trabalhos, com pesquisas, mas sem uma nova missão? Uma nova missão tem custo, inclusive humano. Não podemos esperar que uma nova missão ocorrerá nos mesmos padrões em que a Minustah ocorreu", comenta o professor de relações internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco, Peterson Silva.

Efetivo

A maior parte dos efetivos no Haiti era do Exército, cerca de 800 simultaneamente, no mínimo, que formam um batalhão comandado por um coronel.
Além disso havia também um batalhão de pequeno porte de engenharia, também militar. São eles que abrem as estradas, reconstroem pontes, montam e desmontam bases para a tropa no interior do país e na capital, em especial nos momentos de tragédia, como furacões e tempestades e o terremoto registrado em 2010.
A Marinha possuía um grupo de fuzileiros navais, que realizavam ações nas ilhas e no litoral e a Força Aérea, que conta com oficiais que atuam na coordenação do transporte dos combatentes nesta rota e também um pelotão trabalhando junto com o Exército.
"O Ministério da Defesa foi criado aos seis anos da missão de paz e o trabalho conjunto no Haiti facilitou a integração entre as Forças Armadas", destaca ainda o o general Pinheiro. Segundo ele, isso serviu de exemplo para acões conjuntas das três forças no combate ao narcotráfico e contrabando na Amazônia, e na fronteira seca sul e oeste do país. 






Por Tahiane Stochero e Marina Franco, G1, Porto Príncipe e São Paulo 
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