Menino de Porto Alegre sofre preconceito, abandona ballet e mãe desabafa em rede social: 'Dói muito'

Criança de oito anos foi vítima de bullying por parte de colegas. Adolescentes gaúchos que foram selecionados para a escola de Ballet do Teatro Bolshoi, na Rússia, contam que até hoje enfrentam a homofobia.
Sapatilhas, tênis de futsal e a bola que Artur costuma usar (Foto: Arquivo Pessoal)

Uma postagem no perfil do Facebook da jornalista Cristina Charão Marques chamou a atenção para o preconceito que pode existir entre as crianças. Isso porque na sexta-feira (4) ela publicou um texto contando que o filho, de oito anos, havia desistido de dançar ballet devido ao bullying que vinha sofrendo por parte dos colegas.
"Artur me pediu para não ir mais ao ballet porque 'não aguento mais ser zoado'. E chorou. E sentou no meu colo e ficou ali, chorando e me pedindo desculpas. Me pedindo desculpas por não mais conseguir matar no peito a homofobia, o machismo, os preconceitos arcaicos que gente que nos rodeia reproduz. Dói. Dói muito", escreveu a jornalista gaúcha, que vive em Porto Alegre.
Ao G1, Cristina conta que dançou ballet por mais de 20 anos e isso inspirou o filho Artur a praticar. Ele começou em 2014, aos cinco anos, como o único menino na escola onde dançava.
A mãe relata que não vê no filho o desejo de ser bailarino, até porque a paixão pelo futebol é ainda maior. Ele joga na escolhinha de futsal e também pratica voleibol no colégio onde estuda. Ainda assim, Cristina sente que a dança era uma atividade prazerosa ao menino.
"Ainda é, porque ele começou a fazer sapateado também", lembra-se.
Mas o que dói, aos olhos da mãe, é ver o filho desistir de algo que gosta por conta da ignorância dos outros, como ela mesma define. Embora avalie que o preconceito com Artur não foi algo sistemático, que acontecesse sempre, ela acredita que em determinadas ocasiões a homofobia estava presente.
"Sempre que havia uma desavença, ouvia piadinhas de alguns colegas. Chamavam ele de menininha, principalmente no espaço do futebol. Diziam que ele não podia jogar porque era bailarino", lamenta.
O que mais incomoda Cristina é a sensação de impotência em relação ao preconceito. Segundo ela, ainda que muitos digam que não são machistas, homofóbicos, continuam fazendo piadas com as mulheres ou com os homens que optam por atividades como o ballet.
"Acho que a manutenção dos preconceitos não é um problema só para quem é o alvo. No fundo, essas crianças em algum momento vão sofrer com isso, vão se privar de falar alguma coisa, de serem elas mesmas", analisa.
Cristina descreve, por outro lado, que recebeu diversas mensagens de pessoas se solidarizando com a situação vivida por ela e pelo filho. Alguns, inclusive, relataram vivências parecidas com a de Artur.
"Eu recebi coisas muito bacanas. Várias das mensagens são de homens narrando suas experiências com dança, com arte. Alguns que desistiram e voltaram a fazer depois, mais velhos. Mas é importante saber que nem ele está sozinho nem eu, como mãe", destaca.

Do preconceito ao Bolshoi

Maurílio e Murilo Souza Muniz na audição do Bolshoi (Foto: Escola do Teatro Bolshoi no Brasil/Divulgação)

Os gêmeos Murilo e Maurílio Souza Muniz, de 15 anos, foram selecionados em uma audição realizada em julho deste ano para uma bolsa de estudos na escola de ballet do Teatro Bolshoi, na Rússia. Os adolescentes de Santo Antônio da Patrulha, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, contam que desde que começaram a dançar, há cinco anos, sofreram esse mesmo tipo de preconceito.
"Isso acontece até hoje. Tem gente que acha que a imagem é mais importante. Mas o que realmente importa é gostar do que faz", diz Maurílio.
O irmão concorda, e aconselha que os praticantes da dança não se abatam com o que os outros dizem. Para ele, o mais importante é seguir em frente e não desistir dos sonhos.
"Para nós nunca foi uma alternativa desistir. A gente só ignora, não dá bola, porque senão a gente não chegaria até aqui", lembra Murilo.
Em fevereiro do ano que vem, Murilo e Maurílio embarcam para a Rússia em busca do sonho de serem bailarinos profissionais, fato que não agrada nem mesmo a toda a família.
"A parte dos mais novos aceita mais, mas os mais velhos não gostam muito. Eles têm essa ideia de que o homem tem que sustentar a família, trabalhar, e para eles ballet não é trabalho", lamenta Maurílio.

'Todo menino que chega sofre com as piadinhas'

Professora de ballet clássico e proprietária de uma das principais escolas de dança em Porto Alegre, Carlla Bublitz afirma que o número de meninas que fazem ballet é muito superior na relação com o de meninos. Segundo ela, a proporção é de aproximadamente 100 meninas para cada dois meninos.
"Não sei o número certo aqui da escola, mas é algo em torno disso. Todo menino que chega sofre com as piadinhas", conta.
Ela relata que alguns começam a fazer e desistem no meio do caminho, em muitos casos devido ao preconceito. Ainda assim, ela garante que os homens são bem recebidos na escola e que a maioria deles têm ótimas histórias relacionadas ao ballet.
"É irrisório o número de meninos, mas é tão bonito ver os meninos ou os homens adultos dançarem. Tem rapazes que vieram sem a família saber, muita história bacana", ressalta.
Para Carlla, o preconceito quanto ao ballet vai além das questões de gênero. A falta de incentivo à educação e à arte no Brasil é, segundo ela, o maior problema.
"Não existe essa cultura no nosso país, nem mesmo para as meninas. Os pais colocam, mas não consideram uma atividade profissionalizante. Eles perguntam: 'como vai viver da dança e pagar suas contas?' Isso é muito triste", reclama a professora. 







Por Luã Hernandez, G1 RS 
COMPARTILHAR:

+1

Publicidade:

Roraima music no twitter

Total de visualizações

Cursos Online

Receba Nossas atualizações

•Recomende-nos No Google+
•Receba Nossas Notícias do Roraima Music Por e-mail