Do tratamento do câncer à extração do ouro: Nobel de Química explica as aplicações de sua descoberta

Em entrevista, Sir J. Fraser Stoddart fala sobre as suas máquinas moleculares, mas também sobre Trump, ciência e a criação de suas startups.
Sir J. Fraser Stoddart em coletiva na Iupac 2017, sediana em São Paulo (Foto: Fábio Tito/G1)

Sir James Fraser Stoddart, o escocês que vive nos Estados Unidos para a criação de suas pesquisas na Universidade Northwestern, é um dos inventores das "máquinas moleculares" ou nanomáquinas. Junto com outros dois cientistas, ele recebeu o último prêmio Nobel de Química por essa descoberta e fala ao público nesta quarta-feira (12) no Iupac 2017, o maior congresso internacional sobre o assunto -- sediado em São Paulo após uma negociação de 10 anos.
Essas nanomáquinas são moléculas com movimentos controlados que podem realizar tarefas, uma grande evolução no campo da nanotecnologia. Elas são estruturas tão pequenas que um fio de cabelo tem uma espessura cerca de mil vezes maior do que elas.
Sobre as aplicações práticas dessa descoberta, Stoddart contou que pretende usar seu trabalho para a criação de uma startup para a extração mais limpa do ouro. Até então, a pedra preciosa era retirada com a ajuda do cianeto, substância supertóxica e prejudicial à natureza. Como as nanomáquinas conseguem agir de forma seletiva, elas podem contribuir para a atividade.
"O Nobel da Química deste ano não foi dado para uma aplicação imediata. É mais uma recomendação de uma pesquisa fundamental", disse. "Eu peço para vocês serem pacientes e eu penso que veremos as máquinas moleculares ocupando um lugar no futuro em áreas que são importantes para a sociedade, como resolvendo aspectos problemáticos para a tecnologia, ciência dos materiais, ciências sociais e saúde".
Ele contou que outra startup deverá usar o mesmo mecanismo para a captação do dióxido de carbono (C02) ou algum poluente no meio ambiente.

Governo de Trump

Questionado sobre a alegria de ter ganho um nobel, Stoddart diz que "faz o seu melhor", e lembra que contou com a ajuda da família e de seus estudantes, mais de 40 cientistas ligados ao seu grupo. Afirmou que "a ciência é global" e que "muitos jovens brasileiros são vistos participando" disso.
Ele lamentou, no entanto, os rumos dos projetos norte-americanos e diz que país está retrocedendo. "Nos Estados Unidos estamos voltando ao que nós éramos antes", disse. "O governo de Trump nunca poderá ser ótimo, isso só poderá ser devastador".
Stoddart recebeu o prêmio Nobel de Química em 2016 (Foto: Fábio Tito/G1)

Contra o câncer

Celia Ronconi foi uma das orientandas de Stoddart, hoje pesquisadora da Universidade Federal Fluminense. Ela aplica o que aprendeu com o professor em um de seus estudos no Brasil, que usa as nanomáquinas para diminuir os efeitos colaterais do câncer. Essas máquinas moleculares trabalhariam como um "transportador" seguro do medicamento dentro do corpo.
“A gente usa remédios contra o câncer em aplicações por meio de nanomáquinas. As drogas só vão ser liberadas quando chegarem ao tumor. É uma forma seletiva e que reduz os efeitos adversos causados pelos medicamentos”, explicou.
De acordo com Ronconi, as máquinas moleculares de Stoddart ajudam a levar o medicamento de forma mais direta até as células do câncer e vão “ao ponto, no tumor”, sem agridir tanto as células que ainda são saudáveis no corpo, como ocorre com os tratamentos atuais.
A equipe da professora já fez testes em laboratório e diz que consegue ter uma taxa de redução do tumor 30% maior do que com o uso tradicional dos remédios, sem a ajuda das nanomáquinas.
Nobel de Química 2016 (Foto: Arte/ G1)







Por Carolina Dantas, G1  
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