Um ano após acidente que matou 18 na Mogi-Bertioga, São Sebastião mantém contrato com empresa de ônibus | Portal RR Music

Um ano após acidente que matou 18 na Mogi-Bertioga, São Sebastião mantém contrato com empresa de ônibus

A União do Litoral foi denunciada pelo MP por 18 homicídios e 12 lesões corporais. Prefeitura alegou falta de tempo hábil para fazer nova licitação e renovou contrato por um ano por R$ 2,9 milhões.
ônibus é visto ainda capotado à beira da pista após acidente na Rodovia Mogi-Bertioga, no limite entre as cidades de Mogi das Cruzes e Bertioga (Foto: José Patrício/Estadão Conteúdo)

Um ano após a tragédia que matou 18 pessoas em um acidente na rodovia Mogi-Bertioga, a empresa União do Litoral ainda é a contratada pela Prefeitura de São Sebastião para fazer o transporte dos estudantes que moram no Litoral Norte e estudam em Mogi. Segundo a administração, não houve tempo hábil para fazer outra licitação e o contrato foi renovado.
A proprietária da empresa e dois funcionários são apontados pelo MP como responsáveis pelo acidente, por negligência. No último mês de janeiro, o contrato com a empresa foi prorrogado por mais um ano pelo valor de R$ 2,9 milhões.
O acidente foi na noite do dia 8 de junho de 2016, quando o fretado retornava com os alunos para São Sebastião. O ônibus capotou e, além dos mortos, outros 17 ficaram feridos.
Um laudo da época apontou que o acidente foi causado por falha mecânica. O ônibus tinha problema no tambor de freio. A dona e um funcionário da União do Litoral foram indiciados pelo capotamento.
Os ônibus que levam os estudantes, atualmente, não trazem a logomarca da União do Litoral. A empresa subcontratou a Transmimo, de Campinas, para prestar o serviço.
Informados pelo G1 sobre a manutenção do contrato com a empresa do litoral, estudantes e parentes das vítimas demonstraram surpresa e revolta. Por causa da subcontratação, eles acreditavam que o contrato com a União do Litoral havia sido cancelado ainda no ano passado.
“A minha filha estava morando em Mogi das Cruzes, mas voltou a ir de ônibus depois que acreditamos que havia mudado a empresa. Não sabíamos que era a mesma. É uma sensação de total impotência", disse Gilberto Leite, pai de Gabriela Leite, de 19 anos, uma das sobreviventes. Ainda traumatizada pelo acidente, a jovem preferiu não dar entrevista.
Damásia Vital era passageira da linha Mogi-São Sebastião até o começo deste ano e conta que os problemas no transporte continuaram após a tragédia. “Os ônibus têm aparência de mais novos, têm cinto de segurança, mas em cerca de um mês depois do início das aulas tivemos dois problemas mecânicos na estrada. Agora saber que eles não tem identificação, mas são da União do Litoral me deixa frustrada. É injusto que permaneçam”, disse.
Ela perdeu amigos na tragédia e, como estava no ônibus que seguia atrás do envolvido no acidente, ajudou no resgate das vítimas antes da chegada dos bombeiros. Ela deixou o curso após os incidentes envolvendo os ônibus.

Apreensão

Antes da Transmimo, o ônibus de outra subcontratada da União do Litoral, a Marly Tur, foi apreendido pela Artesp em uma blitz na estrada em fevereiro. O órgão apontou que o veículo trafegava sem documentação, o que caracterizava transporte clandestino de passageiros.
Na época, a prefeitura justificou que o motorista havia esquecido o documento na garagem, mas que a operação do transporte de alunos ocorria de maneira legal.

Outro lado

A Prefeitura de São Sebastião explicou em nota que não fez a troca da empresa por não conseguir licitar outra operadora para o serviço em tempo hábil, de maneira que não prejudicasse o período letivo dos estudantes.
O contrato anterior da União do Litoral venceu em 10 de janeiro, assim que o prefeito Felipe Augusto (PSDB) assumiu o cargo. A atual gestão disse que o governo anterior não deu início à licitação para troca de empresa.
A União do Litoral informou que a terceirização dos veículos é permitida por contrato e que usa atualmente quatro ônibus da Transmimo para atender ao contrato com a prefeitura de São Sebastião. Antes, a viação Grandino operou a rota também como terceirizada.
A União do Litoral destacou ainda que investe na melhoria da segurança e do transporte. Reforçou que em 20 anos de serviço não houve registro de outro acidente com passageiros.
A Transmimo informou que faz o aluguel diário dos carros, mas não fornece motoristas à União do Litoral. Sobre a reclamação da estudante de problemas mecânicos, a empresa não retornou até a publicação desta reportagem. A Grandino também foi procurada para comentar a queixa e não retornou.
O ex-prefeito de São Sebastião, Ernane Primazzi (PSC), foi procurado por meio da assessoria de imprensa para informar porque não cancelou o contrato com a União do Litoral à época do acidente, mas não quis comentar o assunto. Ele também preferiu não rebater a atual gestão sobre o argumento de não ter aberto licitação antecipadamente.
Vítimas de acidente na Mogi-Bertioga (Foto: Arte/ G1)

Trauma

Um ano após a tragédia, estudantes e suas famílias ainda tentam retomar a rotina. Parte mudou para Mogi das Cruzes, com medo de refazer diariamente o trajeto de ônibus. Outros optaram por deixar a universidade.
O aluno Leandro Amorim, de 23 anos, teve duas costelas fraturadas, uma fratura no cotovelo e traumatismo craniano. Ele fazia psicologia, mas deixou o curso depois de desenvolver um quadro de depressão e stress pós-traumático. Hoje, ele não disse que não anda mais ônibus e que, sem dinheiro, não conseguiu manter o tratamento do trauma e o aluguel de um imóvel em Mogi das Cruzes.
“Toda a situação em que me vi me impediu de continuar o curso e tive que trancar para continuar o tratamento. O acidente retardou o meu sonho, mas estou lutando para continuar”, afirmou.
A aluna Mayara Gomes Carvalho, de 22 anos, sobrevivente do capotamento sofreu um impacto na cabeça que deixou sequelas. Até hoje ela ela faz acompanhamento com neurologista. “Tomo medicação por causa dos danos neurológicos e hoje tenho dificuldade de acompanhar o conteúdo na faculdade. Além disso, não consigo pegar ônibus sem antes ser medicada. Uma hora vai passar”, disse. Ela também mudou para Mogi das Cruzes por não conseguir fazer o percurso.
O jovem Felipe Silva, de 18 anos, ficou em coma por dez dias depois do acidente, teve traumatismo craniano e deslocamento da cervical. “O diagnóstico era de que eu ia ficar paraplégico, mas consegui vencer isso. Hoje eu tenho uma vida normal. Minha família teve de se esforçar para eu mudar para Mogi, porque não conseguíamos confiar em fazer o percurso de ônibus”, contou.
O aluno Erick Pedrali voltou às aulas no segundo semestre de 2016. Pela questão financeira, seguiu usando o transporte oferecido pela prefeitura até maio deste ano, mas mudou para Mogi a pedido dos pais. “O que nós passamos foi terrível, as pessoas que perdemos. Mas a minha família sofreu muito, o medo maior é deles, eu acho. Por isso acabei mudando. Eu tive sequelas do acidente e hoje eu tenho dificuldade para absorver o conteúdo, mas eu não vou desistir do meu sonho”, disse.
Jario Viana é pai do estudante Guilherme Mendonça de Oliveira, uma das vítimas fatais do acidente e, para ele, o momento ainda é de tentar superar a dor. Eles mantêm o quarto do filho como era e fazem tratamento psicológico.
“Parece que o tempo só fez a dor aumentar. Outro dia eu peguei a chave do carro e saí como que para buscá-lo na rodoviária no horário de costume. Quando percebi o que estava acontecendo, só chorei”, disse. 






Por Poliana Casemiro, G1 Vale do Paraíba e Região
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