'Questão de honra', diz estudante que sobreviveu a acidente da Mogi-Bertioga e continua curso em busca do diploma de engenharia

Erick Pedralli estava no ônibus que tombou em junho de 2016, deixando 18 mortos. Ele teve traumatismo craniano, se recuperou e continuou estudando: "Por mim, por eles [amigos que morreram], pelos meus pais", disse.
Erick Pedralli, de 22 anos, é sobrevivente do acidente da rodovia Mogi-Bertioga, em Mogi das Cruzes (Foto: Erick Pedralli/Arquivo Pessoal)

Os últimos doze meses da vida do estudante universitário Erick Pedralli, de 22 anos, podem ser resumidos em uma palavra: resiliência. Desde o dia 8 de junho de 2016, o jovem se esforça diariamente para continuar o curso de Engenharia, em Mogi das Cruzes. E são muitos os desafios: as sequelas do acidente com ônibus na Rodovia Mogi-Bertioga, enfrentar a viagem pela estrada pós-tragédia e manter as notas em dia para não perder a bolsa no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).
Naquele dia, 18 pessoas morreram e 28 ficaram feridas. O ônibus que levava universitários estava acima da velocidade permitida e apresentou uma falha no sistema de freios, tombando na rodovia.
"Aprendi o valor das pequenas coisas. Cada momento e gesto vale muito. A pior coisa, quando se está em um acidente como este, não é exatamente estar ali. Não foi tão ruim pra mim, porque eu não me lembro de absolutamente nada. O pior é para os meus pais, meus amigos, porque eles se lembram de tudo ", avalia o estudante que só retomou a consciência no dia 20 de julho, após 42 dias .
Erick sofreu traumatismo craniano e passou por exames para diagnosticar problemas nos pulmões e nos rins. Ele ficou na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santo Amaro. Ele também teve fraturas nas mãos e nos joelhos. "Eu perdi parte do dedo indicador direito e sou destro. Mas acho que o pior foi recuperar a minha sanidade porque eu me lembro de ficar muito confuso, agressivo e repetitivo quando acordei", conta.
O jovem recebeu alta médica no dia 3 de julho, mas só descobriu e entendeu que havia sofrido um grave acidente no dia 20. "Eu não conseguia assimilar nenhuma informação. No dia 20 me deu um estalo e eu perguntei pra mim mãe 'o que houve? Porque estou na cama ?' E aí ela me contou do acidente", disse.
Mesmo com toda dificuldade na recuperação, o jovem de São Sebastião quis continuar o curso de Engenharia na Universidade de Mogi das Cruzes já em agosto. Durante 338 dias, ele enfrentou o mesmo percurso de 130 quilômetros que fazia quando sofreu o acidente.
"Meus pais haviam trancado a matrícula, mas eu insisti com eles e acabaram deixando [voltar]. Eu lutei muito pra conseguir entrar na faculdade e não queria perder assim. Decidi voltar mesmo indo enfaixado pra aula, e mesmo sem estar com a cabeça 100% para entender as coisas. Eu ainda estava muito confuso e assistia a aula sem entender nada. Tinha dia que eu ficava só olhando para o ventilador. Mas achava importante me manter ali, porque sabia que uma hora ia conseguir de novo", disse Erick.
Uma das partes mais difíceis do retorno foi relembrar os amigos que morreram no acidente e ver o ônibus após o tombamento.
"Em frente à universidade tem um terreno e o ônibus todo amassado ficou lá durante uns dias. Foi muito ruim olhar pra ele. Lembrar de todo mundo que morreu também, perdi muitos amigos. Perdi a Daniela, que ia para o último semestre de arquitetura e era muito minha amiga, me dava conselhos. Não gosto muito de falar disso."
Erick Pedralli, no primeiro dia de aula após o acidente, no dia 1° de agosto na Universidade de Mogi das Cruzes (Foto: Reprodução/TV Globo)
De agosto de 2016 até maio deste ano, o jovem continuou a subir a serra. "No começo eu tinha muito medo. Não conseguia dormir no ônibus de jeito nenhum. Mas depois, uns amigos me ajudaram a me distrair. A gente ficava jogando baralho no caminho, e aí foi ficando mais natural. Até que consegui me mudar pra Mogi."
O estudante, que está no 7° semestre de Engenharia Civil, agora mora com um amigo de infância. "Eu já estava procurando casa em Mogi, para ficar mais fácil de trabalhar e evitar a estrada. Aí esse amigo me convidou pra dividir".
Agora, ele sonha com o diploma. "Eu perdi muitos amigos no acidente. E todo mundo lutava pra conseguir um diploma, se esforçava. Eu quero muito conseguir terminar o curso, é questão de honra. Por mim, por eles [amigos que morreram], pelos meus pais, que sofreram muito com tudo isso", conta.

Lembranças

O universitário conta que se lembra de poucas coisas do dia do acidente. "Lembro de ouvir um barulho muito alto vindo da parte de baixo do ônibus. Parecia um cabo estourando, mas achamos que era o pneu. Antes fosse pneu e não os freios. Daí o motorista já começou a pedir para todo mundo colocar o cinto, um pessoal começou a gritar. [Pausa] O ônibus começou a pegar velocidade e o motorista tentava retomar o controle. Daí ele jogou na pedra, para a gente não cair na ribanceira que tinha logo na frente. Depois, só acordei no dia 20 de julho. Mesmo assim acordei acabado, não entendi nada o que estava acontecendo".
O pai do Erick, o caminhoneiro Edemir Pedralli, foi até a rodovia no dia do acidente em busca de informações sobre o filho. Ele chegou a ser avisado, por engano, que o estudante havia morrido. Depois, ele encontrou o filho em estado grave, no Hospital Santo Amaro, em Guarujá.
Perícia no ônibus do acidente na Rodovia Mogi-Bertioga (Foto: Solange Freitas/G1)







Por Jamile Santana, G1 Mogi das Cruzes e Suzano 
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