Jovem alega que foi coagida a gravar vídeo e denuncia pai por agressão em SP

Jovem sumiu por cinco dias, foi encontrada e, após alegar ter sido coagida a gravar um vídeo e registrar um boletim de ocorrência falso, ela foi à delegacia. O pai, acusado por ela de agressão, fugiu com mãe dela.
Estudante foi à delegacia acompanhada de amigos e familiares (Foto: José Claudio Pimentel/G1)

A estudante Gloria Maria de Souza Rocha, de 17 anos, moradora de Santos, no litoral de São Paulo, fugiu de casa para não ser mais agredida pelo pai que, segundo ela, também violenta a mãe. Essa foi versão que a adolescente apresentou à Polícia Civil na noite de domingo (11), acompanhada de amigos e familiares.
O rosto de Gloria se espalhou na internet depois que o pai, o escritor Joselito Oliveira Rocha, de 40 anos, pediu ajuda ao alegar que filha havia sumido após ter sido deixada na escola há uma semana. Cinco dias depois, a jovem foi encontrada, voltou para casa e ainda gravou um vídeo ao lado dele para dizer que estava bem.
Acompanhada de um conselheiro tutelar, da coordenadora da escola onde estuda, de amigos e da irmã biológica, que havia sido separada dela há 16 anos, a jovem prestou depoimento. Antes disso, a mãe dela, Maria José de Souza Franklin, de 44 anos, segundo as testemunhas, foi levada pelo pai, que fugiu para lugar incerto.
Gloria informou à polícia que não foi sequestrada, mas que saiu de casa por causa da tortura que era praticada contra ela e a mãe por Joselito. No dia do suposto desaparecimento, a jovem esclareceu que realmente não assistiu às aulas e deixou o colégio para ser acolhida por um amigo que mora na mesma cidade.
 
Daniela (diretora da escola) e Erika (irmã de Gloria ao lado marido na pota da delegacia (Foto: José Claudio Pimentel/G1)
 

'Desaparecimento'

Em entrevista ao G1, o adolescente de 17 anos, acompanhado do advogado, disse que decidiu ajudá-la ao saber o que acontecia. Ela primeiro foi à casa dele, onde ficou até quarta-feira (7), e depois seguiu até Mongaguá (SP), a 55 km de distância, para encontrar a irmã, Erika Cristina Carballo de Oliveira, de 23 anos.
"A Glória me achou por uma rede social. Disse que sofria em casa e que não queria mais morar com ele, que não aguentava mais ver ele batendo na mãe, de judiar da família. Ela me relatou que várias vezes ele a agrediu", contou. Erika viu passar diante dos olhos aquilo que ela mesmo sofreu há 16 anos.
Elas são irmãs por parte de mãe, mas nunca tinham se falado. As duas foram separadas depois que a Justiça determinou que o casal Maria e Joselito perdesse a guarda de Erika, que foi colocada à adoção. A decisão ocorreu após a jovem, na época com 6 anos, ficar três meses internada em um hospital por conta das agressões que sofria.
Juntas elas buscaram o Conselho Tutelar naquela cidade na esperança de que encontrariam uma solução e, assistidas, também foram à polícia. Gloria chegou a ser encaminhada a um abrigo na quinta-feira (8), mas, para a surpresa delas, as conselheiras em Mongaguá a entregaram para o pai, na sexta-feira (9), sem aparente justificativa.
Gravação mostra Gloria, Maria Jose e Joselito. Segundo relato, as duas foram ameaçadas por ele (Foto: Reprodução)

De volta

Ao chegar em casa, Gloria relatou que foi coagida pelo pai a gravar um vídeo dizendo que estava tudo bem. "Foi sob ameaça dele. A minha irmã me disse que ele falou: 'ou você fala o que eu quero ou eu vou matar você, sua mãe e a sua irmã'", contou Erika. A gravação ainda mostra a mãe, Maria José, dizendo que todos estão bem.
Se não bastasse, a estudante também relata à polícia que foi obrigada por Joselito, na noite de sábado (10), a realizar um boletim de ocorrência no 7º Distrito Policial contra a mãe do amigo que a acolheu, e a outras pessoas que a ajudaram. Isso foi um basta para que Gloria pudesse relevar a real versão dela, apoiada por conhecidos.
A coordenadora da escola do Colégio Ramos Lopes, Daniela Cabral, de onde a aluna supostamente tinha desaparecido há uma semana, acompanhava os bastidores da história desde o início e foi quem acionou o Conselho Tutelar em Santos, no domingo, para auxiliar. "Eu disse a ela para confiar em mim, que eu tentaria protegê-la".
Daniela e Erika conseguiram encontrar com Gloria, que as acompanhou até a delegacia. A mãe, Maria José, reencontrou com a primeira filha, pediu desculpas e disse a ela que, pela primeira vez, "toparia falar a verdade". No trajeto, Joselito as surpreendeu em um carro e levou a esposa para lugar incerto, segundo todas as testemunhas.
Gloria foi acolhida por amigos para conseguir chegar à delegacia (Foto: José Claudio Pimentel/G1)

Delegacia

Enquanto continuaram o trajeto ao Distrito Policial, elas conseguiram contato com Maria José apenas uma vez. Em uma gravação apresentada ao G1, a mulher parece chorar ao dizer que "vai ficar tudo bem". O caso, nessa nova versão, foi apresentado na Central de Polícia Judiciária (CPJ), no Palácio da Polícia, no Centro de Santos.
"Solicitei uma medida protetiva para que ela não volte para casa. Ficará sob nossa responsabilidade até que a Vara da Infância e Juventude determine o destino dela", explicou o conselheiro tutelar Mauricio Bezouro Carvalho. Como representante da menina, ele não permitiu que ela concedesse entrevista.
O caso foi registrado pelo delegado Otávio Augusto Carvalho, com naturezas de ameaça (diante das acusações contra o pai), denunciação caluniosa e constrangimento ilegal (por alegar ter sido coagida a fazer um boletim com informações falsas). A situação será acompanhado pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG) nesta segunda-feira (12).
Ao longo da noite de domingo e da madrugada de segunda, o G1 tentou contato com Joselito e Maria pelos telefones que eles mesmos anunciaram na ocasião do desaparecimento da filha. Nas tentativas, as ligações eram direcionadas à caixa postal. No período, a página do escritor, em uma rede social, foi tirada do ar.
Após 16 anos separadas, irmãs se reencontraram em um pedido de ajuda (Foto: José Claudio Pimentel/G1)






Por José Claudio Pimentel, G1 Santos 
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