Mãe de usuária de crack internada em projeto da Prefeitura reclama de atendimento: 'Horrorizada' | Portal RR Music

Mãe de usuária de crack internada em projeto da Prefeitura reclama de atendimento: 'Horrorizada'

Mulher encontrou a filha com a mesma roupa de dois dias antes deitada em uma maca próxima ao chão do hospital. Secretaria da Saúde diz que 'paciente recebeu todo o atendimento necessário'.
Letícia foi deixada em chão de hospital após fazer pedido de internação (Foto: Arquivo pessoal)

Após lutar mais de 10 anos contra o vício da filha no crack, Roseli F., de 51 anos, ouviu o que tanto esperava: "Mãe, quero me internar". A família buscou a tenda do projeto Redenção, da Prefeitura de São Paulo, instalada na última sexta-feira (26) na região da Cracolândia. A filha, Letícia, foi internada no mesmo dia. Ao visitá-la nesta segunda (29), a mãe a encontrou com a mesma roupa de dois dias antes deitada em uma maca próxima ao chão do hospital.
"Tinham dito que iam colocar ela num quarto", disse a mãe. "Me falaram: 'Ela vai para esse hospital, ficar num quarto, vai fazer 30 dias de desintoxicação e depois tem uma avaliação, provavelmente fica mais 30 dias até ir para outro ambiente, uma clínica ou comunidade terapêutica'." Após a visita desta segunda, Roseli disse que saiu "decepcionada e horrorizada".
Letícia Faleiros, de 33 anos, foi levada ao Hospital Santa Marcelina, na Zona Leste da capital paulista. Esta é sua oitava internação, a primeira de forma voluntária. Além de reclamar da falta de infraestrutura do local, a mãe de Letícia também disse que os funcionários não estão preparados. "Eles gritavam com o pessoal: 'Vai deitar, se você não deitar, vou amarrar'", contou a mãe.
Procurada, a assessoria de imprensa da Secretaria Estadual da Saúde, responsável pelo Santa Marcelina, diz que "denúncia não procede" e que "a paciente recebeu todo o atendimento necessário, foi alimentada, medicada, tomou banho e ficou em observação".
A pasta acrescenta que a paciente "estava internada numa maca que foi rebaixada até a altura mínima, próxima do solo, conforme determinam os protocolos de atendimento para pacientes com esse tipo de quadro". Segundo o comunicado, isso ocorre para "evitar que o paciente nessa condição, que geralmente apresenta agitação, caia da maca e se machuque".
A Prefeitura de São Paulo disse, em nota, que a paciente "solicitou internação voluntária na tenda do programa Redenção e foi encaminhada para o hospital Santa Marcelina para tratamento de desintoxicação, conforme preconizado pela Política Nacional de Saúde Mental".
"Só porque é dependente químico, estava na Cracolândia, acham que qualquer lugar é melhor. E não é assim, gente", critica mãe de usuária de drogas.

Tentativa de retirada do hospital

Na manhã desta terça-feira (30), Roseli e o padrasto de Letícia, José Renato Sanches, estavam na tenda novamente, mas para procurar uma solução e tentar tirar Letícia do Santa Marcelina. "Ela tá nisso aí desde os 18 anos. A vantagem, agora, é que ela quer internar. Ela quer sair disso", disse Roseli. "Ela está muito fraca, debilitada. É uma moça bonita. Está irreconhecível."
Na tarde desta terça (30), Letícia foi encaminhada para o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e outras Drogas (Cratod), também do estado. A transferência para o Cratod ocorreu após a reclamação da mãe de Letícia e seu padrasto na porta do Recomeço, fato presenciado pela reportagem.
Em nota, a assessoria da Secretaria Estadual da Saúde afirma que "em nenhum momento a família da paciente queixou-se para a equipe médica sobre o atendimento prestado e tampouco protocolou qualquer reclamação nos serviços de atendimento ao usuário da unidade".

O contato com a droga

"A Letícia teve de tudo para não cair nessa vida. Sempre trabalhei, ela ficava na escola e com a avó", disse Roseli, que se separou do pai de Letícia quando ela tinha 5 anos. Elas moravam em Taboão da Serra, na região metropolitana da capital.
"Mas o envolvimento dela com amizades foi o que pegou muito, porque em casa nós não conseguíamos controlar isso. Depois, ela passou a namorar uma pessoa que eu não sabia que era envolvida [com drogas]". Deste namoro, Letícia tem uma filha de sete anos, que mora com a avó paterna. "Eu nunca tive contrato com droga, não conhecia, não sabia nem o que era maconha. Então ela aproveitou isso de mim", conta Roseli.
A mãe contou que uma vez encontrou pinos de cocaína em uma gaveta. "Perguntei o que era, ela inventou qualquer coisa, e eu acreditei. Um mês depois, vi uma reportagem sobre prisão de traficantes, eles mostraram esses pinos, e descobri. Aí que a ficha foi cair. Só que aí a situação dela já tava evoluída. Aí eu a internei pela primeira vez, à força".
Após as internações, Letícia sempre tinha recaídas. Há quatro anos ela vive na Cracolândia, e a cada três, quatro meses ligava para dar notícias a Roseli. Nesse processo, a mãe de Letícia adoeceu e teve depressão. Há dois anos, ela e José Renato, padrasto de Letícia, se mudaram para Catanduva, no interior paulista. Hoje, conta que está mais forte. "Já estive muito pior. Passava mal só de entrar naquele fluxo." 








Por Paula Paiva Paulo, G1 SP, São Paulo
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